Capítulo 2: Yanko
Devo dizer que meu nome é Yanko e sou um publicitário bem-sucedido, dono de uma agência de publicidade chamada Zeus, que faz campanhas para vender as futilidades do mundo. Ganhei dinheiro com ela. Muito. Sou genial e faço campanhas geniais. Beba isso e seja um vencedor. Compre aquele carro e tenha o universo a seus pés. Compre. Consuma. Mostre seu valor mostrando quão tolo e imbecil você consegue ser consumindo tudo que eu digo para você comprar.
Oh, boy, como é fácil manipular os sentimentos dos pobres diabos mortais. Como é fácil manipular vaidades, despertar sentimentos, paixões, pieguice, ódio, inveja, gula, luxúria. Tão fácil que me pergunto se Deus, o Pai, não deu a seus filhos qualquer mecanismo de inteligência e bom senso quando os criou. Que Pai faz filhos assim tão tolos e imbecis?
Ás vezes caminho pelas ruas. Gosto de olhar no rosto das pessoas. Elas não têm noção de sua mediocridade. Melhor assim. Melhor que sejam tolas, vaidosas e ignorantes. Dizem que a vaidade é o pecado favorito do diabo. É o meu também. Sem ela, a vaidade, eu não conseguiria dinheiro. De novo, ponto para ele, o demo.
E penso que se eu, um deus de segunda classe, consegue manipulá-los tão facilmente, o diabo já nem deve achar graça em seu trabalho. Deve estar entediado, bocejando, jogando pôquer com alguma alma penada, bêbado e blefando no meio de alguma encruzilhada. Deus venceu o diabo pelo tédio. Mas é difícil crer que, como dizem os religiosos, exista uma guerra entre ele e Deus pela humanidade. Afinal, quem iria querer levar essa escória para casa? Quem ia querer esse lixo como troféu?
Nesta época, desenvolvi também cinismo e ironia dignos de deuses. Divirto-me com eles, e penso que o cinismo é mesmo uma coisa divina. É uma espécie de blindagem contra a estupidez.
Conheci Yasmin, ainda na faculdade. Foi uma das uma únicas pessoas que que não me pareceram tolas nem fúteis. Alma simples, belos cabelos castanhos longos, olhos de cor de folha seca, bem resolvida, bonita e dona de um jeito suave de levar a vida, Yasmin me conquistou com sua meiguice e com um amor que parecia interminável.
Logo me rendi a seus encantos e decidi que, se fosse ter uma companheira, não acharia ninguém mais perfeito que ela. Casamo-nos três meses antes de nos formarmos em publicidade e dois anos depois de nos conhecermos. Tínhamos, então, 23 anos. Éramos crianças. Mas crianças crescem. E nós crescemos.
Logo vieram os filhos, Pedro e Mel. E eu tinha que ganhar dinheiro. Assim, enquanto eu construía carreira e fama na publicidade, Yasmin trabalhava em casa e cuidava da família. Mel tem os cabelos castanhos e olhos amendoados da mãe, e Pedro carrega minha impaciência e ansiedade, mas é belo e é capaz de gestos surpreendentes de carinho quando quer. Pena que quase nunca queira.
Lembro-me deles em algumas ocasiões. Poucas ocasiões. Às vezes, quando eram crianças, contava-lhes estórias, fazia-os rir e beijava-os antes de dormir. Nessa época, eu ainda não sabia que era deus. Deixava Pedro adormecer deitado no meu peito e sentia sua respiração no meu rosto. Parecia um anjo. Mel era sapeca, gostava de bonecas, desenhos e tinha bom humor. Ria de todas as minhas brincadeiras, mesmo as mais tolas.
Mas eu tinha que ganhar dinheiro. Enquanto eles cresciam, me dediquei de corpo e alma ao trabalho para erguer minha agência e colocá-la no topo do mundo. Quando finalmente cresceram, Zeus já estava consolidada.
Mas então eles, meus filhos, pareciam já não precisar de mim. Pedro tinha 17 anos e Mel 15. Um abismo colossal formado por anos de isolamento havia se erguido entre nós. Algo havia se quebrado. Coisas ficaram pelo caminho. Eu já não era o mesmo. Nem eles. Já não brincávamos e eu mal os via. Eles viviam em seus mundos de mistérios e amigos que eu jamais conheceria, e compartilhavam alguma coisa com a mãe. Às vezes, de noite, Yasmin me falava sobre eles, sobre o que estavam fazendo e suas preocupações. Mas eu estava cansado demais para ouvir.
Eu não conhecia seus segredos e tinha certeza de que jamais conheceria. Tampouco eles conheciam as angústias, dores e solidão que, com uma freqüência insuportável e incomum, costumavam devastar meu coração. Nem mesmo Yasmin conhecia toda a amplidão do mar negro que habitava minha alma. Naquela época, ela já havia se tornado o único elo entre eu e o “mundo normal”.
Acabei tendo problemas com eles, meus filhos. Quando percebi que haviam crescido, tentei controlá-los. Deuses querem estar no controle. Tentei impor limites e exercitar uma autoridade que já não tinha. Mas não havia mais tempo para isso. De certa forma, eles já haviam partido. Embora morassem em minha casa, suas almas habitavam outros mundos. Tivemos brigas que me deixaram profundamente ferido. Alguns ferimentos sangram até hoje. Afinal, desisti. Já não podia fazer mais nada e deixei que Deus, o mandachuva, assumisse o controle. Eles não sabem e provavelmente nunca saberão, mas amo-os profundamente.
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