segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Escritos Sujos - Capítulo 4


Capítulo 4: O Começo do Fim
Cansada e amarga, Yasmin entrou em profunda depressão e pediu-me que saísse de casa. Fiz a mala e parti no dia seguinte. Senti tristeza. Meu elo com o “mundo real” havia se partido. Estava solto na minha loucura, cada vez mais insana. Caminho aberto para o fim. Melhor assim. 
Então chegou o começo do fim. Nem sexo, nem caçadas, nem bebidas me satisfaziam mais. Pelo contrário, alimentavam o vazio cada vez maior na minha alma. Experimentei dor. Transformei-me num deus doente. Gritava de uma dor lancinante, a dor do vazio, da solidão, da tristeza sem razão e sem fim, da descrença total e em tudo e em mim, da desesperança. Mas ninguém ouvia. Claro.
Acostumaram-se com o deus orgulhoso e prepotente, senhor de si e da situação. Como, agora, poderia convencê-los da minha dor e fraqueza? Nem mesmo Yasmin compreenderia.
Deixei o trabalho nas mãos dos meus executivos. Afastei-me de tudo. Passava o dia bêbado em flats imundos no centro de uma cidade imunda, de uma humanidade imunda. De noite, vagava por ruas escuras na esperança de que algum enviado de Deus ou do diabo aparecesse do nada e cravasse um punhal no meu coração. Mas ninguém apareceu. Amaldiçoei céus e infernos por isso.
Minha loucura piorou. Sonhava e tinha visões com Yasmin, com Mel, com Pedro. Conversava com pedras, paredes e com Deus em mesas de bar. Ele aparentava uns 40 anos, embora não tivesse cabelos brancos, e tinha um sorriso irônico no rosto. Sim, a ironia também lhe caía bem.
Certa vez, numa noite fria em que a chuva e o vento pareciam intermináveis, entrei num bar escuro, mórdibo, com um ar denso e pesado pairando no ar, mesas decadentes e uma estranha luz azul no teto. Sombras. Jim Morrison bebia uísque em uma mesa, cantarolando “É o fim, meu amigo, o fim de todos nossos sonhos”. Poe também estava lá, na mesma mesa, com o corvo pousado nos ombros. Bebia cerveja e já estava bêbado. E Nietzsche tomava um conhaque e coçava o bigode. Sentei-me numa mesa ao lado e fiquei observando-os.
Então o diabo chegou e sentou-se à minha mesa. Trajava terno impecável, goma no cabelo e olhos de fogo eterno.
- Yanko, disse ele com voz gutural, sei que você tem simpatia por mim. Há muito tempo o aguardo. Venha comigo e deixe o sofrimento neste mundo Dele. A rua está movimentada. Você está bêbado. Basta cruzá-la eu farei o resto. Você será bem recebido na minha morada.
Eu não disse nada e ele desapareceu sorrindo e dançando valsa no fundo do meu copo de cerveja. Já não sabia se estava bêbado ou louco. Ambos, provavelmente. Levantei-me e fui até a mesa de Jim, Poe e Nietzsche.
Puxei uma cadeira e sentei. O corvo dormitava como um demônio nos ombros de Poe. De vez em quando, abria os olhos em brasa e me fitava. Poe nada falou, mas fitou-me com seus olhos tristes e tomou mais um gole de cerveja. Parecia pensar em Lenora. Jim limitou-se a murmurar que as pessoas são estranhas. E Nietzsche falou, batendo a mão na mesa, que Deus estava morto e que eu, como um deus, também deveria estar.
Ele estava certo. Lembrei-me do diabo. Levantei-me cambaleando e dirigi-me até a porta. Um cachorro negro de olhos vermelhos sorriu para mim na noite trevosa. Atravessei a rua. Foi rápido. Luzes vieram em minha direção. Senti um golpe na barriga e o corpo voar. Depois, aterrissei no asfalto com gosto de sangue na boca. A cabeça bateu primeiro e ouvi um estalo de osso quebrado. Tudo ficou escuro, mas ainda ouvi o barulho da freada e senti o cheiro de pneus fritando no asfalto. Estava debaixo de rodas. Sangue fluía da minha boca. “Finalmente consegui”, pensei, antes de apagar e ver o diabo dançando valsa na calçada.

Um comentário:

  1. Estou lendo avidamente, Paulo! Literatura ágil e bem feita. Adorando a atmosfera sinistra. Beijos!

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