sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Eu, Deus - capítulo 1


                                                       Eu, Deus

                                            Capítulo 1: A descoberta                                             

Descobri que eu era uma espécie de deus aos 45 anos de idade, na quinta tentativa mal-sucedida de suicídio. A bala mascou no revólver. Antes, já havia fracassado com remédios, cortes e ferimentos. Foi aí que comecei a perceber que era quase imortal. Um deus. Um deus louco e insano.
O problema é que mortais comuns não entendem o porquê de alguém como eu querer morrer. É simples: a vida é um porre. Um fardo. Como gostar disto? Só loucos. Ou normais demais, quase vulgares. Ou, segundo Nietzsche, humanos, demasiadamente humanos.
Loucos são loucos. E normal é aquela gente chata, para quem a vida é um presente, uma dádiva. Família, amigos, acordar, trabalhar, beber, comer, dormir, batalhar por um emprego melhor, roupa nova, carro novo, festa, balada, futebol, praia no fim de semana, novelas, fofocas sobre famosos, flertes, ficar, pegar, deixar, churrasco, encontros sociais, namoro, casamento, cinemas, shoppings, formaturas, batizados, perfume, poder. Bobagens. Tudo bobagens sem sentido. Tudo estupidez. Aberração. Não sou louco nem normal. Por isso, me enquadrei na categoria de deus, um deus caído. A vida não me apetece.
Acho que fui deus desde pequeno. Sempre achei este mundo estúpido e as pessoas idiotas. Desde pequeno, carrego em mim uma melancolia sem fim e sem explicação, que vem se tornando em angústia monumental com o passar dos anos. Nunca entendi completamente isso. “Eu nunca fui, desde a infância, jamais semelhante aos outros. Nunca vi as coisas como os outros a viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum. Nunca tampouco extrair delas o meu sofrimento”. (Edgar Allan Poe). Nem eu.
A vida não passa mesmo de um jogo maluco. Por motivos inexpugnáveis, Ele, o Criador, não nos permite saber as respostas para nossas perguntas. Acho isso cruel. Por isso, não deixo de nutrir uma ligeira simpatia pelo diabo. Temos coisas em comum. O gosto pelas trevas, por exemplo. Talvez o diabo seja mais humano do que Ele.
Não me acusem de insensível. Faço um esforço gigantesco, desde pequeno, para tolerar as pessoas e seus mundinhos medíocres. Acho-as, quase todas, insuportáveis, fúteis, tolas, inseguras, carentes, infantis. Na escola, aos 10 anos, já vivia praticamente isolado. Eu não era um deles. No ginásio, achava os colegas idiotas. Na faculdade, ria de suas carências e debochava de seus sonhos. Nunca fui um deles. Nunca tive sonhos ou planos.
Para agüentar a viver, inventei caras e bocas. Dou risadas, fumo cigarros, bebo cervejas, conto piadas sem graça e finjo satisfação. Uso máscaras. Milhares de máscaras, uma para cada ocasião. Perdidas em suas tolices, elas, as pessoas, sequer percebem quão grande é minha máscara. Melhor assim.
Com o passar dos anos, fui abandonando, pouco a pouco, minhas máscaras. Hoje, aos 47, não faço mais questão de esconder a carranca horrenda na qual se transformou minha alma. O resultado é ausência total de vida social e amigos. De alguns anos para cá, entreguei-me a um trabalho sistemático e silencioso, como convém, de eliminar amigos. Eram idiotas também. Não preciso deles. Deuses se alimentam de egos, elogios, adorações e oferendas num altar sujo de sangue e beleza.

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