José e Maria
Estou de saco cheio dessa merda toda que bosta acordo todo dia e é a mesma coisa a cabeça dói de ressaca não sei quanto bebi e vomitei no chão todo essa noite não sei o que leva alguém a ser assim mas acho que não tem jeito isso é coisa de gente feito eu sem eira nem beira coisa de vagabundo as pessoas me olham e riem de mim e da minha roupa suja de vômito e vida mas estou cagando para elas e elas que se danem no fogo dos infernos e me deixem em paz que o diabo as carregue.
Fico de pé tenho que ficar o mundo roda tenho que trabalhar catar latinha e papel senão não consigo dinheiro para aquela merda de prato feito do almoço com carne de sola de sapato e feijão azedo e da cachaça da noite quando encontro Maria e a gente bebe até não mais poder e rola no chão e ela me abraça com sua pernas magras e cheia de manchas escuras e eu agarro seus cabelos encardidos e a penetro e fazemos sexo até feder e sinto suas unhas rasgando minhas costas e a gente bebe e fuma um cigarro quando o dinheiro sobra tomo um conhaque barato porque não tenho dinheiro para bebida cara e a vida não vale uma bebida cara e Maria ri na minha cara porque sabe que não tenho dinheiro e diz que só fica comigo quando está solitária e que nos outros dias sai com outros catadores que têm mais dinheiro e então ela some de noite e só aparece no outro dia com o rosto cortado e um olho roxo e então ela volta pra mim e eu a recebo de volta porque quero seu sexo e seu cheiro e seu suor de vez em quando pra me sentir vivo e partilhar meu suor e meu conhaque e parte da minha sujeira porque sou vagabundo e minha alma é mais suja que meu corpo e só Maria sabe e não se importa com minha sujeira nem com minha alma porque a alma dela também deve ir para o inferno junto com a minha e fico pensando como seria nós dois no inferno de mãos dadas e transando e fico pensando se tem conhaque no inferno e se tiver vou beber um ou dois tragos com Maria e o capeta.
Nasci nas ruas filho de mãe pedinte de esmola em sinal de carro chique e pai vagabundo e já me revoltei e cheirei cola e essas merdas todas que a gente cheira quando é jovem e está se fudendo pra vida até perceber que a vida também está se fudendo para você e que se você não ficar esperto a vida te leva pro fundo da terra e quero não morro de medo de pensar em eu deitado debaixo da terra e sete palmos de terra em cima de mim e assim fui levando até minha mãe morrer de fome e desilusão e hoje não tenho casa nem família nem emprego só tenho Maria e esse trabalho de catador de lata de papel e a cachaça e de vez em quando um conhaque um cheiro de liberdade e o chão do galpão onde durmo vomito e faço sexo com Maria.
Quando caí nas ruas e nela fiquei e senti fome e pedi dinheiro e ninguém me deu dinheiro para comer então comecei a roubar fruta ou qualquer comida que aparecesse na frente porque saco vazio não para em pé e rodei a cidade e me chamavam de doido mas eu estava cagando para eles só queria comer e ficar sentado num banco qualquer foi quando conheci Maria e ela me deu um pedaço de pão e eu disse que amava ela e ela riu um sorriso sem dentes e me deu mais um pedaço de pão e aí mesmo com a boca cheia de pão eu dei um beijo de língua nela e ela deu outro em mim e sua boca tinha gosto de cachaça e solidão mas amei Maria assim mesmo e decidi ficar com ela não sair mais de perto dela até porque eu não tinha ninguém e ela também não e me contou sua história a velha história de sempre da menina que perde a virgindade no interior e vem trabalhar na capital e cai na vida e nunca mais volta e não sei porquê mas gosto de ficar repetindo nunca mais acho que é uma frase bacana que os bacanas devem usar mas Maria era triste e passava os dias catando latinha e papel e decidi que também cataria latinha e papel e quando tínhamos algum dinheiro comprávamos cachaça ou conhaque e íamos para o fundo do galpão de papel e ali mesmo fazíamos sexo e fedíamos a suor e loucura e nossas peles eram cheias de manchas e sujeira mas eu não me importava e gostava de fazer sexo com ela assim mesmo e beijava seus seios e ela gemia e gritava e me deixava doido e parecia até que o mundo acabava ali.
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