domingo, 23 de outubro de 2011

Eu, Deus - Capítulo 3


Capítulo 3: A depressão
Aos 39 anos, a ironia e o cinismo deixaram de fazer efeito e de preencher o vazio da minha alma. O mundo começou a me parecer ainda mais insuportável. O trabalho também já não era suficiente. Foi então que apareceu a depressão. Deuses não foram feitos para viver neste mundo. Decidi blindar ainda mais minha alma contra sentimentos, emoções ou qualquer coisa que pudesse me ferir. Tornei-me seco e oco como uma árvore velha. Aos 41, veio a primeira tentativa de suicídio. Remédios. Depois, a segunda, a terceira, a quarta e a quinta.
Foi então que apareceu o doutor psicanalista. Um cara legal. Deu-me remédios contra depressão e disse que eu deveria parar de ser tão severo comigo mesmo. Que deveria relaxar um
pouco e aproveitar a vida. Decidi seguir seus conselhos, mas não sabia como aproveitar uma vida que não havia pedido. Então, deixei os remédios de lado e comecei a beber.
Instaurei um happy hour em Zeus. Depois das sete da noite, eu, meus diretores e alguns funcionários abríamos duas ou três garrafas de uísque, enchíamos a cara e ríamos como palhaços. Chegava em casa diariamente bêbado e fedendo a álcool. No começo, Yasmin se queixou. Depois, eu só ouvia seus soluços e lágrimas abafadas no travesseiro durante a noite. Mas estava bêbado demais para me preocupar. Nunca gritou ou brigou comigo. Parecia reconhecer que deuses são mesmo estranhos e diferentes.
Paula era uma das minhas melhores redatoras. Brilhante. Bonita, morena, uns 25 anos, casada, sem filhos. Quando começou a ficar para o happy hour, percebi que seu olhar me procurava com insistência. Decidi brincar de apaixonado e aproveitar a vida, como o doutor mandou. Convidei-a para um vinho, ela topou, saímos depois do expediente e transamos naquela mesma noite.
Foi assim por três meses. Chegava sempre tarde em casa e não fazia questão de esconder a camisa toda suja de batom. Deuses não devem satisfações. Yasmim foi perdendo o brilho do olhar. Mas eu estava fazendo o que o doutor mandou. Então, um dia, cansei-me de estar apaixonado. Estava começando a ficar monótono. Demiti Paula no dia seguinte. Nunca mais a vi. Como não tenho emoções, nada senti. Era só mais um vazio na minha vida.
Depois, vieram outras mulheres. Eu tinha que aplacar e preencher meu vazio. Acabei com o happy hour e comecei a sair sozinho para a noite. Descobri que manipular mulheres é ainda mais fácil que manipular otários. Palavras certas na hora certa, um toque na mão, uma lorota qualquer e pronto. Elas se abrem, sorridentes, para você. Eu era um deus e mulheres não resistem a deuses.
Conheci e fiquei com mulheres de todas as idades, quilos, aparência e personalidade. Fiquei com ninfetas, jovens, mulheres maduras, louras, morenas, ruivas, casadas, solteiras, desesperançadas, loucas por um relacionamento sério, ficantes, pegantes. As mais jovens me transmitiam o elixir da juventude. Eram quentes e me faziam sentir como um garoto. As maduras, mais calmas, me faziam sentir o sexo em sua plenitude.
Transformei-me num lobo voraz em busca de caça todas as noites. Voltava para casa com o corpo saciado, o sangue movido a uísque e a cabeça vazia. Desmaiava na cama e só voltava a esse estúpido mundo real no dia seguinte. Ás vezes, ainda encontrava Yasmin chorando. E assim se passaram meses.
Contei ao doutor e ele veio com aquele papo furado de que existem dois lobos dentro da gente: um bom e outro mau. E que o mais forte seria aquele que eu alimentasse melhor. Como sou um deus justo, decidi alimentar meus dois lobos para que, em pé de igualdade, eles que se pegassem e decidissem, nos dentes, quem era mais forte. O mau venceu e, com ele no comando, mantive minhas caçadas noturnas. Ok, confesso que trapaceei o resultado. Mas Deus também não trapaceia com seus filhos?

2 comentários:

  1. Estes deuses à solta são uma perdição total para os humanos (as).

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  2. Muito bom! Até agora li os deuses. Amanhã parto para os escritos sujos. Você é um louco, e eu tenho grandes simpatias por loucos, apesar do medo que tenho deles...

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